Kaspa (KAS) depois do Toccata: virou L1 programável, mas dá pra comprar sem corretora nacional?
GHOSTDAG, o hard fork de 30 de junho, o fair launch com preço a pagar, o fim da resistência a ASIC e o que muda na sua declaração de Imposto de Renda.
| Pergunta | Resposta curta |
|---|---|
| O que é o Kaspa | Layer 1 proof-of-work sobre um blockDAG (não uma cadeia única), coordenado pelo protocolo GHOSTDAG, com ~10 blocos por segundo |
| O que mudou em 30/06/2026 | Hard fork Toccata: covenants nativos (SilverScript), tokens KRC-20 na camada base e opcodes de prova zero-knowledge |
| Fair launch? | Sim, sem pré-mine, ICO ou VC em 07/11/2021, mas também sem tesouraria de protocolo pra financiar o crescimento |
| Ainda resistente a ASIC? | Não, a IceRiver dominou o hashrate com ASICs dedicados desde 2023 |
| Onde comprar no Brasil | Nenhuma corretora nacional lista KAS; use Bybit, OKX, Gate, KuCoin ou MEXC à vista (Binance só tem futuros) |
| Imposto de Renda | Corretora estrangeira pode tirar a isenção dos R$ 35 mil/mês; declare acima de R$ 5 mil em bens, mesmo sem vender |
1. Kaspa virou notícia: o que aconteceu em 30 de junho e por que isso chegou até o Brasil
2. GHOSTDAG em bom português: como um blockDAG processa 10 blocos por segundo sem descartar nada
3. O que o hard fork Toccata destrava de verdade (SilverScript, KRC-20 e os opcodes de prova zero-knowledge)
4. O paradoxo do fair launch: nenhum pré-mine, mas também nenhum caixa para bancar a expansão
5. “Resistente a ASIC” durou um ano e meio: a chegada da IceRiver e a concentração do hashrate
6. A espiral da morte que analistas temem: o que acontece se a mineração parar de compensar
7. Da rede de pagamentos ao sonho de virar uma L1 programável: o Kaspa consegue competir com Ethereum e Solana?
8. DAGKnight: o próximo passo no roteiro (e por que ainda não está no ar)
9. Tokenomics do KAS: oferta, emissão cromática e quanto já foi minerado
10. Onde comprar KAS estando no Brasil: Binance, Bybit, OKX, Gate, KuCoin e MEXC na prática
11. Imposto de Renda sobre KAS: a regra dos R$ 35 mil, a declaração dos R$ 5 mil e a pegadinha da corretora “no exterior”
12. Glossário rápido: GHOSTDAG, blockDAG, orphan block, covenant, SilverScript, KRC-20, hard fork e DAGKnight

1. Kaspa virou notícia: o que aconteceu em 30 de junho e por que isso chegou até o Brasil
| Lançamento da mainnet | 07/11/2021, fair launch (sem pré-mine, ICO ou alocação a fundadores) |
| Hard fork Toccata | Ativado em 30/06/2026: covenants, KRC-20 e opcodes de prova ZK |
| Velocidade de blocos | ~10 blocos por segundo |
| Preço em jul/2026 | ~US$ 0,030 (cerca de 85% abaixo do ATH de US$ 0,2074) |
| Oferta máxima | 28,7 bilhões de KAS (teto fixo) |
| No Brasil | Sem listagem em corretora nacional, só via exchange estrangeira |
Terça-feira, 30 de junho, 13h15 no horário de Brasília (16h15 em UTC). Foi nesse instante, no bloco marcado
pelo score DAA 474.165.565, que a rede Kaspa ativou na mainnet o hard fork batizado de Toccata. Se você
não acompanha o projeto de perto, é bem provável que o nome só tenha chegado até você numa timeline de cripto
ou num grupo de Telegram repetindo a mesma frase: “o Kaspa virou programável”. E foi mais ou menos isso que
aconteceu. Até ali, a rede sabia fazer bem uma única coisa: mover valor rápido, sem travar. Agora ela ganhou
capacidade técnica pra rodar lógica condicional e emitir tokens nativos direto na camada base.
No mercado, a reação seguiu o roteiro de sempre pra esse tipo de catalisador técnico: nada de disparada, só uma
oscilação de curto prazo dentro de uma faixa estreita. No fechamento do próprio dia 30 de junho, dia do fork,
o KAS valia cerca de US$ 0,0303. No dia seguinte, 1º de julho, recuou pra US$ 0,0292, e só voltou a subir até
US$ 0,0311 em 3 de julho, o pico dessa primeira semana pós-Toccata. Isso é uma variação de menos de 10% pra
cima e pra baixo em poucos dias, bem longe de qualquer coisa que mereça o nome de rali. Só que cuidado: sozinho,
esse número engana quem passa o olho rápido demais pelo gráfico. Qualquer ponto dessa faixa, seja US$ 0,029 ou
US$ 0,031, ainda representa uma queda de mais de 85% frente à máxima histórica da moeda, que rondou US$ 0,2074 a
US$ 0,2075 no fim de julho e começo de agosto de 2024. O upgrade técnico foi ruído de curto prazo, não virou
tendência nenhuma: o preço subiu um pouco, caiu um pouco, e quando a semana fechou não sobrou alta nenhuma
que se sustentasse, o KAS estava basicamente de volta onde tinha começado antes do fork. Quem espera que
“upgrade técnico grande” vire “preço dispara” vai se frustrar se olhar só pro gráfico dos últimos dias.
Tem uma pergunta, porém, que pesa tanto quanto entender o que é o Kaspa em si, e ela é específica de quem
lê isso daqui do Brasil: nenhuma corretora nacional lista o token, então comprar KAS já obriga abrir conta
numa exchange estrangeira. Isso mexe direto no jeito como você acerta as contas com a Receita Federal, porque
interfere em quanto de imposto você paga (ou deixa de pagar) na hora de vender.
2. GHOSTDAG em bom português: como um blockDAG processa 10 blocos por segundo sem descartar nada
Bitcoin, e o Ethereum de antes das mudanças recentes, resolvem um problema banal de um jeito bruto: a
cada rodada, só um bloco segue em frente na cadeia principal. Quando dois mineradores acham um bloco quase
no mesmo segundo, a rede escolhe um pra continuar e joga o outro fora. Esse bloco descartado tem nome
técnico, orphan block (bloco órfão), e representa poder computacional que virou lixo. Quanto mais rápido a
rede tenta cravar blocos numa cadeia única, mais órfão sobra pelo caminho. É por isso, aliás, que o Bitcoin
segura a produção em cerca de 10 minutos por bloco: um intervalo mais curto faria a rede desperdiçar
trabalho demais e ficar insegura.
O Kaspa ataca esse problema trocando a estrutura de dados por dentro. Em vez de uma cadeia única, ele
roda sobre um blockDAG (grafo acíclico dirigido de blocos). Pensa numa praça de pedágio numa rodovia
cheia. Numa cadeia tradicional só existe uma cabine aberta: todo carro que chega junto de outro entra na
fila, e o sistema processa um de cada vez, deixando os demais parados. No Kaspa várias cabines funcionam ao
mesmo tempo, ou seja, mineradores diferentes conseguem produzir blocos simultâneos, e o protocolo
GHOSTDAG faz o papel do sistema de câmeras que depois organiza a ordem em que todos os carros
passaram, sem descartar nenhum. Cada bloco novo entra no grafo e ganha uma posição definitiva em relação aos
outros. Nada se perde.
Esse desenho é o que deixa o Kaspa gerando cerca de 10 blocos por segundo, com confirmação praticamente
instantânea, sem abrir mão da segurança que vem de empilhar trabalho de proof-of-work. Na prática, é uma rede
pensada pro dia a dia de quem paga as contas: ninguém quer comprar um cafezinho e ficar 10 minutos esperando
pra saber se a transação confirmou, que é exatamente o que acontece hoje no Bitcoin. Foi basicamente pra
resolver esse problema que o Kaspa nasceu. Só que desenho técnico é uma coisa, uso real é outra, bem diferente. Em julho de 2026, dá pra contar nos dedos
os projetos de DeFi que realmente rodam em cima do Kaspa com volume que se sustenta sozinho. A maior parte
do volume que existe hoje ainda é aposta no preço do próprio KAS, sem nenhum aplicativo de verdade
consumindo aquilo por trás.
3. O que o hard fork Toccata destrava de verdade (SilverScript, KRC-20 e os opcodes de prova zero-knowledge)
“Programável” é uma palavra usada muito solta em cripto, então vale destrinchar o que o Toccata realmente
entrega. São três peças técnicas novas, e nenhuma delas é uma máquina virtual estilo EVM (a que roda
contratos do Ethereum). O Kaspa optou, pelo menos por enquanto, por não replicar esse modelo.
| Elemento | O que é |
|---|---|
| Ativação | 30/06/2026, por volta das 16h15 UTC, no score DAA 474.165.565 |
| SilverScript | Programação nativa de covenants na camada 1, lógica de gasto condicional embutida direto no protocolo, sem depender de uma máquina virtual global |
| KRC-20 | Padrão de tokens fungíveis emitidos direto na camada base do Kaspa, sem precisar de contratos externos |
| Opcodes de prova zero-knowledge | Instruções que permitem verificar provas ZK diretamente na L1 |
| Etapa anterior | As funções de covenant já tinham sido testadas ao vivo na Testnet 12, antes de ir pra mainnet |
| O que muda na prática | Kaspa deixa de ser só uma rede de pagamentos veloz e ganha a base técnica pra contratos inteligentes e DeFi |
Na prática, um covenant (que o SilverScript implementa nativamente) é uma regra que restringe como
uma moeda pode ser gasta no futuro: por exemplo, “esse saldo só pode sair dessa carteira se for para um
endereço específico” ou “só pode ser movido depois de tal condição ser satisfeita”. Isso abre espaço pra
coisas como escrow sem intermediário, canais de pagamento mais sofisticados e regras de custódia programadas
diretamente no protocolo, sem precisar de um contrato externo rodando lógica arbitrária. Já o KRC-20 é
o equivalente do Kaspa a padrões como o ERC-20 do Ethereum, mas nativo da camada base: dá pra emitir um
token com nome, símbolo e oferta própria sem depender de uma ponte pra outra rede. E os opcodes de prova
zero-knowledge permitem verificar, on-chain, que algo é verdade (por exemplo, “esse valor está dentro de um
intervalo” ou “essa transação é válida”) sem revelar todos os detalhes por trás. É a mesma base técnica que
projetos de privacidade e escalabilidade, rollups inclusive, costumam usar em outras redes.
É fácil se empolgar com essa lista e já imaginar o Kaspa como o próximo Ethereum. Melhor manter os pés
no chão: o que existe hoje, de fato, são os tijolos. Um ecossistema de DeFi rodando de verdade, com liquidez
de sobra e usuário ativo todo dia, ainda não existe. Um Uniswap ou um Aave da casa do Kaspa também ainda não
existe. O que já está pronto é a infraestrutura de baixo nível pra que esse tipo de aplicativo comece a
aparecer daqui pra frente. Se você já mexeu com
DeFi em outras redes, sabe como essa história costuma seguir: primeiro vem o
contrato no ar, empolgação garantida nas redes sociais; só bem depois, se vier, aparece gente de verdade
usando aquilo todo dia, com dinheiro de verdade circulando ali dentro. O Kaspa acabou de completar a
primeira etapa. A segunda, sinceramente, nem começou, e costuma levar meses pra amadurecer, às vezes
anos.
nativo novo (como o KRC-20 agora), aparece uma onda de golpes com tokens falsos se passando por projetos
“oficiais” ou prometendo airdrop de recompensa por participar do fork. Não existe airdrop oficial do Kaspa
ligado ao Toccata anunciado pela equipe do protocolo; desconfie de qualquer link pedindo pra conectar carteira
“pra reivindicar”. Se caiu ou quase caiu em algo do tipo, vale ler nosso guia de
golpes de criptomoedas pra reconhecer os sinais antes de perder dinheiro de verdade.
4. O paradoxo do fair launch: nenhum pré-mine, mas também nenhum caixa para bancar a expansão
O lançamento da mainnet do Kaspa, em 7 de novembro de 2021, foi genuinamente um fair launch: sem
pré-mine, sem ICO, sem alocação reservada para fundo de venture capital, sem lote guardado pra fundadores.
Todo mundo que quis minerar desde o primeiro bloco competiu nas mesmas condições. Num mercado onde a maioria
dos L1s lançados naquela época (2020 a 2022) tinha 15%, 20%, às vezes 30% da oferta pré-alocada para equipe e
investidores institucionais, isso é raro de verdade. É um ponto que joga a favor do projeto de um jeito
honesto e genuíno.
O detalhe que a torcida do Kaspa costuma pular é o outro lado dessa mesma moeda. Pré-mine não serve só pra
engordar a carteira de fundador: em boa parte dos projetos ele banca um fundo de tesouraria, que paga
financiamento pra desenvolvedor externo, campanha de marketing, integração com carteira e corretora e, sendo
direto, os acordos comerciais que colocam uma moeda em listagem de peso. Sem pré-mine, esse caixa
simplesmente não existe no Kaspa. Aqui não tem fundação nenhuma com bilhões em token guardado no cofre pra
bancar o crescimento do ecossistema, do jeito que Ethereum, Solana e boa parte dos concorrentes bancam o
deles.
O que existe hoje é a Kaspa Ecosystem Foundation (KEF), montada anos depois de a rede já estar no
ar. Ela vive de doação, patrocínio e investimento captado de fora aos poucos, sem nunca ter tido uma fatia
de token reservada de largada pra isso. O programa Katalyst, na primeira fase, levantou algo em torno de
US$ 10 milhões nesse formato. É dinheiro real, ajuda de verdade, mas é uma escala completamente diferente
de uma tesouraria nativa de protocolo. Na prática, quem sustenta o crescimento do Kaspa hoje é o voluntário
que topa colaborar de graça, a comunidade organizada em torno do projeto e uma parceria pontual aqui e ali,
sem nenhum orçamento centralizado planejado com anos de antecedência por trás. Aí mora o calcanhar de
Aquiles do modelo: pra atrair desenvolvedor de aplicação numa disputa contra redes que distribuem milhões
de dólares em bolsa de fomento a cada trimestre, o Kaspa conta com quem topa codar de graça ou com doação
avulsa que chega num ritmo que ninguém controla. E tem outro detalhe que aperta esse cenário: a emissão de
KAS novo, que poderia em tese virar receita pra financiar alguma coisa, cai cerca de 5% ao mês (a mesma
queda que a Seção 6 detalha do lado da mineração). A fonte que sobraria pra tapar esse buraco está cada vez
menor, mês após mês.
5. “Resistente a ASIC” durou um ano e meio: a chegada da IceRiver e a concentração do hashrate
O algoritmo de mineração do Kaspa, o kHeavyHash, chegou junto com o lançamento carregando uma promessa
clara: nada de ASIC dominando o jogo, só placa de vídeo comum, do jeito que qualquer pessoa em casa conseguia
rodar. A ideia era não repetir o que aconteceu com o Bitcoin, onde hardware especializado caríssimo expulsou
o minerador de garagem faz tempo. Essa promessa durou cerca de um ano e meio.
Em 2023, a fabricante IceRiver, de Hong Kong, quebrou essa barreira lançando os primeiros ASICs
dedicados ao Kaspa: os modelos KS0, KS1 e KS2. Meses depois, em agosto daquele mesmo ano, a Bitmain
(a mesma empresa por trás dos Antminer que dominam a mineração do Bitcoin) entrou nesse mercado com o
Antminer KS3. Dali em diante foi só escalar: a Bitmain lançou o KS5, o KS5 Pro e, já em 2026, o KS7, cada
geração baixando um pouco mais o consumo de watts por terahash. A IceRiver respondeu com sua própria linha
KS3, KS3L, KS3M e KS5L, mas ficou pra trás em eficiência. Hoje o Antminer KS7 da Bitmain roda a cerca de
68 a 77 joules por terahash, enquanto o IceRiver KS7 (sim, as duas fabricantes batizaram máquinas
completamente diferentes com o mesmo nome) consome perto de 117 joules por terahash pra entregar bem menos
hashrate. Quem ainda pensa em IceRiver como sinônimo de mineração de Kaspa está enxergando uma foto velha:
hoje são duas gigantes de hardware brigando entre si, e a marca do equipamento pesa bem menos do que a
eficiência energética de cada modelo específico. Um Antminer KS7 e um IceRiver KS7 saem da mesma geração e
levam nome parecido, mas um pode dar lucro enquanto o outro trava no prejuízo, só pela diferença de watts por
terahash. A próxima seção mostra isso com números na mesa.
Apesar da concorrência da Bitmain, a IceRiver segue sendo a marca com mais unidades espalhadas pela rede,
operando fazendas de hospedagem em vários países (República Tcheca, Noruega, Dubai, Texas e Paraguai, entre
eles), com a operação em Dubai se beneficiando de uma tarifa de energia elétrica em torno de US$ 0,0575 por
kWh. A resistência a ASIC prometida na largada não sobreviveu ao mercado. Hoje é uma corrida entre duas
fabricantes grandes pela margem de eficiência, e o minerador pequeno de GPU ficou de fora da equação.
A comunidade do Kaspa não costuma esconder esse cenário. O argumento que ela levanta é outro: como os
blocos saem a cada fração de segundo, contra os ~10 minutos do Bitcoin, minerar sozinho, sem entrar num pool,
é proporcionalmente mais viável no Kaspa do que numa cadeia de bloco lento. Até um minerador pequeno acaba
encontrando bloco com frequência razoável, sem precisar de um pool centralizado pra ter renda previsível. É
um argumento com lastro real, mas que não apaga o fato de que o hashrate da rede está concentrado entre
duas fabricantes de ASIC e um punhado de fazendas industriais.
No Brasil, esse debate quase nem chega a acontecer. O custo da energia elétrica pra rodar ASIC em escala é
alto demais por aqui, bem diferente do Vietnã, por exemplo, onde existe uma comunidade de mineradores de
Kaspa mais estabelecida (embora ela também tenha sido sacudida pela chegada dos ASICs, com muitos pequenos
mineradores de GPU saindo do jogo). Quem se interessa por Kaspa no Brasil quase sempre entra pelo lado de
comprar e guardar o token numa corretora, não de montar rig em casa.
6. A espiral da morte que analistas temem: o que acontece se a mineração parar de compensar
O modelo de emissão do KAS corta a recompensa por bloco todo mês, num fator matemático fixo (o cálculo
exato está na seção de tokenomics, mais adiante), e esse detalhe esconde um risco que quem só repete
“Kaspa é rápido” raramente para pra explicar direito. É o tipo de alerta que analistas como Jerry Banfield
vêm repetindo em 2026: essa queda de cerca de 5% ao mês corrói, mês após mês, a receita de quem minera. A
pressão é real e mensurável, com números por trás dela (o alerta logo abaixo traz esses números), e merece
atenção de quem pensa em entrar nesse mercado.
O mecanismo é direto. A receita de um minerador vem de duas fontes: a recompensa do bloco, que cai todo
mês, e as taxas de transação, que hoje ainda são baixas na maioria das redes de pagamento rápido, o Kaspa
incluso. Se a atividade on-chain e o volume de taxas não crescerem numa velocidade que compense a queda da
emissão, minerar deixa de ser lucrativo pra uma fatia cada vez maior de operações, e é aí que o minerador
desliga o equipamento: hardware desligado derruba o hashrate, e rede com hashrate menor fica mais vulnerável
a ataque. Esse ciclo, se ele se realimentar, é o que o mercado apelidou de espiral da morte da mineração.
o KAS cotado a US$ 0,0295 (já numa correção frente ao pico pós-fork de 3 de julho) e a dificuldade de
mineração em patamar recorde, o site BT-Miners,
que acompanha a lucratividade de hardware de mineração, rastreou 23 modelos de ASIC dedicados ao Kaspa,
somando as duas fabricantes que disputam o mercado hoje, IceRiver e Bitmain. Na tarifa de energia padrão
usada como referência (US$ 0,07 por kWh), cerca de 87% desses 23 modelos estava operando no zero a
zero ou no prejuízo. Só um apresentava lucro que valesse a pena considerar: o Antminer KS7, da Bitmain
(36 a 45 TH/s), com retorno líquido estimado em torno de US$ 2,94 por dia e prazo pra pagar o próprio
investimento perto de 19 meses. Do outro lado desse mesmo ranking está o IceRiver KS7 (nome parecido,
máquina bem diferente da linha da Bitmain), que mal se sustentava na conta: rendia cerca de US$ 0,45 por
dia, com prazo de retorno pra além de 12 anos, praticamente inviável pra quem pensa em recuperar o valor
pago pelo equipamento. Ninguém pode garantir que a espiral da morte vá se confirmar de fato. O que dá pra
afirmar com segurança é que esse retrato saiu direto da planilha do BT-Miners no dia 10 de julho de 2026, sem
nenhuma projeção envolvida: mais de 8 em cada 10 modelos de ASIC dedicados ao Kaspa já estavam no vermelho
naquele momento, e a escolha da máquina certa faz toda a diferença nesse resultado.
O Toccata, em teoria, dá uma saída pra essa conta: mais transação de token KRC-20, mais covenant sendo usado,
mais gente pagando taxa pra rodar alguma coisa na rede. O problema é o tamanho do buraco que essa receita
nova precisaria tapar. Com 87% dos ASICs dedicados ao Kaspa já no zero a zero ou no vermelho em meados de
julho de 2026, a atividade gerada pelas aplicações teria que multiplicar várias vezes, e rápido, só pra
estabilizar o que já está acontecendo hoje. Tecnicamente, dá pra acontecer, sim. Mas apostar dinheiro numa
recuperação que depende de um aplicativo que ainda nem saiu do papel é outra história bem diferente.
7. Da rede de pagamentos ao sonho de virar uma L1 programável: o Kaspa consegue competir com Ethereum e Solana?
Até o Toccata, o Kaspa se posicionava quase exclusivamente como uma rede de pagamentos e reserva de valor
de alta velocidade: a narrativa era “Bitcoin, só mais rápido e sem descartar trabalho”. Agora a ambição mudou
de tamanho. Virar uma Layer 1 programável, competindo, ainda que indiretamente, pelo mesmo espaço de
desenvolvedores e liquidez que hoje está concentrado em ecossistemas DeFi maduros
como as L2s do Ethereum e a Solana.
E aqui vem o furo: sem grana de fundação, quem vai bancar o trabalho de atrair desenvolvedor pro Kaspa? O projeto não
tem caixa central nem fundo de venture capital bancando bolsa agressiva de fomento pra dev, e roda, na
prática, na base do trabalho voluntário, sem uma liderança corporativa puxando o processo de um lugar só.
Ethereum tem anos de
ecossistema rodado, ferramenta madura e fundações e empresas bilionárias enfiando dinheiro em L2. Solana tem
efeito de rede consolidado, usuário ativo todo santo dia e capital de risco pesado atrás dos seus principais
projetos. O Kaspa entra nessa briga com uma base técnica genuinamente diferente (GHOSTDAG no lugar do modelo
de conta única de sempre), mas sem munição financeira centralizada pra empurrar a adoção pra frente.
Redes com cultura mais orgânica e comunitária já mostraram capacidade de crescer de baixo pra cima em
outros contextos cripto, então descartar o Kaspa de cara seria precipitado. Tratar o sucesso desse
pivô como certeza, porém, também seria mentir pro leitor. O que dá pra acompanhar de forma concreta, nos
próximos meses, é bem específico: quantos contratos KRC-20 mantêm uso recorrente (e não só a criação de mais
um token especulativo), quanto valor fica travado de verdade em covenant e se aparece algum aplicativo com
gente usando todo dia por outro motivo que não seja apostar no preço do próprio KAS. São esses três números
que eu ficaria de olho antes de qualquer outro quando o assunto for o Kaspa virar plataforma de verdade. Até
a data em que escrevo isso, em julho de 2026, nenhum dos três tem um número público que valha a pena citar.
8. DAGKnight: o próximo passo no roteiro (e por que ainda não está no ar)
Se o Toccata é o passo já implementado, o próximo item no roteiro técnico do Kaspa tem nome: DAGKnight.
E o mais importante fica dito logo de cara: DAGKnight ainda não está no ar. Não existe rede de testes pública rodando
DAGKnight em produção até o momento em que este texto foi escrito, em julho de 2026. O que existe é uma linha
de pesquisa avançada em consenso, com um protótipo em Rust em estágio inicial de desenvolvimento.
Tecnicamente, o objetivo do DAGKnight é ambicioso. Ele propõe um modelo chamado “sem limite de atraso”
(no-delay-bound) que, em teoria, permitiria à rede tolerar uma fração maior de participantes maliciosos ou
bizantinos do que o GHOSTDAG consegue hoje, sem depender de um parâmetro fixo de atraso de rede assumido de
antemão. Na prática, isso mira uma tolerância a falhas bizantinas (BFT) mais alta, o que teoricamente
tornaria a rede ainda mais robusta sob condições adversas de latência de rede: um refinamento sobre a base
que o próprio GHOSTDAG já estabeleceu.
Vale ficar de olho na pesquisa, sim, mas não vale montar plano nenhum em cima dela agora: ninguém, nem a
própria equipe do Kaspa, colocou uma data no calendário até hoje.
9. Tokenomics do KAS: oferta, emissão cromática e quanto já foi minerado
A oferta do KAS tem um teto rígido: 28,7 bilhões de moedas, ponto final, sem possibilidade de emissão
extra depois disso. Diferente do Bitcoin, que corta a recompensa pela metade de uma vez a cada quatro anos
(o famoso halving), o Kaspa usa um modelo de redução contínua, apelidado internamente de “fases cromáticas”.
A recompensa por bloco cai todo mês por um fator de (1/2) elevado a (1/12), na prática uma queda suave e
constante, em vez de um corte abrupto. A recompensa inicial, em novembro de 2021, era de 440 KAS por bloco.
Hoje, cinco anos depois, ela já está numa fração bem pequena desse valor, e a curva segue encolhendo mês a
mês até a recompensa cair abaixo da menor unidade divisível da rede (1 Sompi). Pela matemática da fórmula,
isso só deve acontecer cerca de 36 anos depois do lançamento da mainnet em 2021, então lá por volta de 2057,
ou seja, a emissão de KAS ainda vai levar quase três décadas murchando aos poucos até sumir de vez.
| Item | Valor |
|---|---|
| Lançamento da mainnet | 07/11/2021 |
| Pré-mine / ICO / VC | Nenhum (fair launch completo) |
| Oferta máxima | 28,7 bilhões de KAS (teto fixo) |
| Circulante (jul/2026) | ~27,55 bilhões de KAS (cerca de 96% já minerado) |
| Recompensa inicial por bloco | 440 KAS |
| Modelo de emissão | Redução mensal por um fator de (1/2)^(1/12), as chamadas “fases cromáticas” |
| Recompensa perto de zero | Cerca de 36 anos após o lançamento de 2021, por volta de 2057 (abaixo de 1 Sompi, a menor unidade divisível) |
| Velocidade de blocos | ~10 blocos por segundo |
| Máxima histórica (ATH) | US$ 0,2074 a 0,2075 (31/07 a 01/08/2024) |
| Preço em jul/2026 | ~US$ 0,030 (cerca de 85% abaixo do ATH) |
| Valor de mercado (07/07/2026) | ~US$ 830 milhões |
Em julho de 2026, cerca de 96% de toda a oferta máxima já foi minerada: 27,55 bilhões dos 28,7
bilhões de KAS possíveis já estão em circulação. Restam pouco mais de 1,15 bilhão de KAS pra serem emitidos
ao longo das próximas três décadas, numa curva que fica cada vez mais achatada mês após mês. Esse detalhe
pesa direto no debate da seção anterior: a rede está entrando na fase de menor emissão nova justo no momento
em que tenta atrair atividade de aplicações que ainda não existem em escala.
10. Onde comprar KAS estando no Brasil: Binance, Bybit, OKX, Gate, KuCoin e MEXC na prática
Aqui esbarramos direto no ponto que interessa pra quem está no Brasil: nenhuma corretora nacional
lista KAS. Mercado Bitcoin, Foxbit e as demais plataformas registradas no país, até onde verificamos,
simplesmente não têm o par disponível em 2026. Não existe hoje uma corretora brasileira com KAS listado, e
por isso quem quer o token precisa abrir conta lá fora, nem que preferisse resolver tudo por aqui mesmo,
dentro do sistema financeiro nacional.
| Corretora | À vista (spot) | Futuros | Observação |
|---|---|---|---|
| Binance | Não listado (jul/2026) | Perpétuo KAS/USDⓈ-M, até 50x | Só entrou via futuros, em 17/11/2023, nunca abriu o par à vista |
| Bybit | Sim | Sim, até 50x | Taxa maker 0,01% / taker 0,06% |
| OKX | Sim | Sim | Taxa maker 0,08% / taker 0,10% (cai por faixa de volume) |
| Gate | Sim | Sim | Taxas baixas, boa liquidez no par |
| KuCoin | Sim (KAS/USDT e KAS/BTC) | Sim | KAS/USDT desde 06/05/2023; KAS/BTC desde 06/03/2024 |
| MEXC | Sim | Sim | Primeira a listar, na “innovation zone”, em 27/09/2022; taxas baixas no KAS/USDT |
Cinco corretoras internacionais têm o par KAS à vista disponível agora: Bybit, OKX, Gate, KuCoin e MEXC,
cada uma com sua própria estrutura de taxas (detalhes na tabela acima). A Binance é a exceção da lista: só
opera o perpétuo KAS/USDⓈ-M, sem par à vista aberto até julho de 2026.
Bybit
OKX
Gate.io
KuCoin
MEXC
Binance
O caminho mais comum pra quem está começando do zero: usar PIX pra colocar reais numa das corretoras
que aceitam entrada direta em reais (seja por cartão, parceiro de pagamento local ou stablecoin), converter
para USDT ou pro par disponível, e só então trocar por KAS dentro da própria corretora. Se você nunca comprou
cripto e quer entender esse fluxo com calma, nosso guia de como comprar Bitcoin
passo a passo segue praticamente o mesmo caminho, só troca o ativo final por KAS, e nosso
comparativo das melhores corretoras ajuda a escolher com mais segurança antes
de mandar dinheiro pra fora. Depois de comprar, se pensa em manter KAS por mais tempo em vez de deixar tudo
na corretora, vale entender como funciona uma
carteira de criptomoedas própria antes de mover valores relevantes.
11. Imposto de Renda sobre KAS: a regra dos R$ 35 mil, a declaração dos R$ 5 mil e a pegadinha da corretora “no exterior”
Pergunte pra três contadores diferentes se dá pra vender R$ 10.000 em KAS num mês sem pagar Imposto de
Renda, e você corre um risco real de ouvir três respostas diferentes. O contador não está errado: a legislação
brasileira de cripto foi escrita pensando na corretora nacional, e o Kaspa nunca teve uma listagem por aqui.
Esse buraco na lei vira uma zona cinzenta que costuma pegar o investidor desprevenido bem na hora de
vender, quando já é tarde pra corrigir o que devia ter sido guardado desde a compra. Duas regras específicas
da Receita Federal estão por trás dessa confusão toda, e vale entender as duas com calma antes de perguntar
pra qualquer contador.
A regra dos R$ 35.000 por mês. O ganho de capital na venda de criptoativos fica isento de Imposto
de Renda quando o total vendido no mês fica abaixo de R$ 35.000. Mas essa isenção, na leitura que a Receita
Federal aplica, vale para operações feitas por meio de uma corretora nacional. A Binance opera no Brasil sob
o que a Receita chama de “localização 106, exterior”: mesmo que você acesse o site em português e pague com
PIX, a operação é tratada como feita fora do país. Nesse enquadramento, o entendimento é que o imposto sobre
o ganho pode incidir sobre qualquer valor vendido, não importa se foi R$ 500 ou R$ 50.000. O mesmo raciocínio
se aplica, em tese, a Bybit, OKX, Gate, KuCoin e MEXC, todas estrangeiras do ponto de vista regulatório
brasileiro.
A obrigação de declarar acima de R$ 5.000. Independentemente de você ter vendido algo ou não, se
o saldo total em criptoativos (KAS incluso, somado a qualquer outra moeda que você tenha) ultrapassar
R$ 5.000 em valor de aquisição, existe obrigação de listar esses ativos na ficha de “Bens e Direitos” da sua
Declaração de Imposto de Renda anual. E aqui mora uma pegadinha que pega muita gente desavisada: mesmo que o
preço do KAS tenha desabado depois da compra, o valor que entra na sua ficha é aquele que você efetivamente
pagou lá no dia da operação. A Receita trava esse número na data de aquisição, e é ele que decide se você
ultrapassou os R$ 5.000, pouco importa quanto o mercado fez depois disso.
compra (data, valor em reais, corretora usada) desde o primeiro real investido. Se pretende vender, calcule
o total vendido no mês somando todas as operações, não só as de KAS, antes de assumir que está dentro da
faixa de isenção. Como essas regras têm interpretações que mudam e o enquadramento de “exterior” pode gerar
dúvida caso a caso, o mais seguro é confirmar com um contador especializado em criptoativos antes de declarar,
principalmente se os valores envolvidos forem relevantes. A ideia aqui é só evitar que você seja pego de
surpresa na hora de declarar, a palavra final sobre o seu caso específico é do seu contador.
E vale reforçar: esse imbróglio entre corretora nacional e estrangeira não nasceu com o Kaspa. Toda altcoin
sem listagem doméstica cai no mesmo buraco fiscal, o KAS só ilustra bem o problema porque nem uma corretora
brasileira sequer chegou perto de listar o token. Se você quer entender o cenário regulatório brasileiro de
cripto de forma mais ampla, vale conferir nosso
panorama de regulação cripto em 2026.
12. Glossário rápido: GHOSTDAG, blockDAG, orphan block, covenant, SilverScript, KRC-20, hard fork e DAGKnight
O que é GHOSTDAG? É o protocolo de consenso do Kaspa: organiza os blocos produzidos em paralelo
dentro do blockDAG e decide a ordem final de todos eles, sem descartar nenhum como perdedor.
blockDAG é o nome da estrutura de dados que sustenta o Kaspa. Em vez de uma cadeia linear única, é
um grafo acíclico dirigido de blocos, o que permite vários blocos paralelos coexistindo e sendo processados
juntos, ao mesmo tempo.
Já o bloco órfão (orphan block) é o oposto disso: numa blockchain de cadeia única, é o bloco válido
que acaba descartado porque outro bloco concorrente foi escolhido pra continuar a cadeia principal. No Kaspa
esse desperdício praticamente não existe, porque o blockDAG inclui esses blocos em vez de jogá-los fora.
DAGKnight ainda não passa de protótipo (código em Rust, estágio inicial): é a próxima linha de
pesquisa em consenso do Kaspa, mirando um modelo “sem limite de atraso” com tolerância a falhas bizantinas
mais alta do que o GHOSTDAG atual. Não está em produção em julho de 2026.
Um covenant é uma restrição programada em como uma moeda pode ser gasta no futuro, por exemplo só
para um endereço específico ou só depois de certa condição se cumprir. No Kaspa, quem implementa isso
nativamente é o SilverScript.
SilverScript foi o mecanismo que o Toccata trouxe pra permitir programar covenants direto na
camada 1 do Kaspa, sem depender de uma máquina virtual global como a do Ethereum.
KRC-20 é o padrão de token fungível nativo da camada base do Kaspa, também introduzido pelo
Toccata. Funciona de um jeito parecido com o ERC-20 do Ethereum, mas sem precisar de contrato inteligente
externo pra existir.
Por fim, hard fork é como se chama qualquer mudança nas regras de um protocolo que não é
compatível com versões anteriores do software: todos os nós da rede precisam atualizar pra continuar
validando os mesmos blocos. Foi esse tipo de atualização que o Toccata trouxe pro Kaspa em 30 de junho de
2026.










