Dez mil bitcoins por duas pizzas: a primeira coisa que o bitcoin comprou. Ninguém percebeu

Dez mil bitcoins por duas pizzas: a primeira coisa que o bitcoin comprou. Ninguém percebeu

Duas pizzas, dez mil moedas e quatro dias sem ninguém querer o negócio. O pagamento continua no registro público, então este artigo lê o registro em vez de repetir a história.

Lido no registro público e numa cópia arquivada do tópico original, setembro de 2026
Do que se trata

Naquele pagamento sobrou quase uma moeda inteira de taxa. Não porque alguém decidiu pagar isso: é o que acontece quando você põe mais do que manda.

Esse pagamento continua na blockchain. Então, em vez de repetir a história, este artigo vai lá e lê: as mensagens originais do fórum e a própria transação. Qualquer pessoa consegue fazer o mesmo sem ter uma única moeda.

Várias coisas saíram diferentes da versão que todo mundo repete, e é aqui que elas divergem.

Todo mundo conta as dez mil moedas. Quase ninguém conta a taxa: 0,99 moeda ficou para trás naquele pagamento, e não foi escolha de ninguém.

É o tipo de detalhe que só aparece quando você abre o registro em vez de repetir a história. Foi o que eu fiz: os posts originais num arquivo da web, e a transação na blockchain, lida duas vezes no mesmo dia.

Linha do tempo da oferta de pizza por bitcoin em maio de 2010 mostrando a publicação da oferta no dia dezoito, um leitor calculando que as moedas valeriam cerca de quarenta e um dólares, os quatro dias sem ninguém aceitar, o momento do dia vinte e um em que o comprador perguntou se estava oferecendo pouco demais, e o pagamento anotado no registro no dia vinte e dois - Cryptonakta
O vazio do meio é a parte que a história costuma pular.

Um anúncio num fórum pequeno

Era pouco depois da meia-noite de 18 de maio de 2010. Um homem de Jacksonville, na Flórida, publicou uma mensagem num fórum pequeno. Ali dentro, algumas centenas de pessoas discutiam sobre um tipo de dinheiro que existia havia pouco mais de um ano.

Mãos digitando num fórum em um notebook antigo à noite, com caneca e bloco de contas ao lado, cena do bitcoin pizza day
Cena que imagina a noite em que a oferta de bitcoin por duas pizzas foi digitada no fórum. Ilustração gerada por IA.

Pago 10.000 bitcoins por umas duas pizzas. Duas grandes, para sobrar alguma coisa para o dia seguinte.

Ele se estende um bom tempo falando de recheio. Cebola, pimentão, linguiça, cogumelo, nada com peixe em cima. Uma de queijo também serviria, acrescenta, que talvez saia mais barata. O que ele queria mesmo era comida chegando na porta sem precisar resolver nada.

Alguém pergunta em que país ele mora. Ele responde com a cidade e o CEP, e essa linha sozinha diz o tamanho da sala. Dar seu CEP a desconhecidos para combinar o jantar não era estranho ali.

E não era uma época estranha para isso. Nenhum comércio do mundo aceitava a moeda. Os lugares para trocá-la por dinheiro mal começavam a existir. Usar significava achar uma pessoa num fórum e confiar nela.

O fórum em si tinha poucos meses. Olhe as contas que responderam a ele e os números de mensagens vêm em dezenas e centenas. Ninguém naquele tópico imaginou que a cena seria citada no mundo inteiro depois. Para eles era um cara tentando receber o jantar.

E ele não era espectador. Trabalhava no próprio software e queria saber se aquilo em que vinha mexendo servia para alguma coisa fora da tela. O que ele testava não era o programa. Era se um desconhecido do outro lado toparia.

Os quatro dias

E aí não aconteceu nada.

Passou um dia, passou outro. Nenhuma pizza.

Na noite em que a oferta subiu, uma conta com dez mensagens respondeu de passagem. Dez mil era bastante coisa, dizia, e dava para vender num site de troca por 41 dólares naquele momento. E no fim uma alfinetada: boa sorte com a pizza de graça.

Guarde essa linha. Os 41 dólares que hoje acompanham essa história em todo lugar saíram exatamente dali. Não era cotação oficial, ninguém negociou nesse preço, e quem escreveu estava chutando de passagem, quatro dias antes de existir qualquer pizza.

Um leitor europeu se oferece para ajudar mas não consegue entender como pagar uma pizzaria americana do outro lado do Atlântico. Aceitariam um cartão estrangeiro por telefone? O homem responde com paciência que muitos lugares já pegavam pedido pela internet. A conversa para ali.

Outro deixa uma piada de uma linha perguntando se alguém conhece cabeleireiro que come pizza. Era piada, e esse era mesmo o clima do tópico. Ninguém levou a oferta a sério.

Passam mais dois dias. Num fórum, quatro dias é muito tempo. A mensagem já estaria descendo para o fim da página.

Na noite de 21 de maio ele volta ao próprio tópico e escreve isto:

Então ninguém quer me comprar uma pizza? A quantidade de bitcoins que estou oferecendo é baixa demais?

Leia de novo. Ele estava preocupado que dez mil bitcoins não fossem suficientes para interessar alguém a pedir um jantar para ele. No preço que eu via na tela enquanto escrevia isto, aquela oferta valia por volta de 3,9 bilhões de reais. Ficou quatro dias ali e ninguém quis.

Duas horas depois ele explica o motivo numa única linha, e essa é a parte que quase sempre some dos resumos:

Eu só acho que seria interessante poder dizer que paguei uma pizza com bitcoins.

Ele não tentava ganhar dinheiro nem perder. Queria poder dizer a frase. Isso aqui compra um jantar ou não? É o tipo de pergunta que só se resolve fazendo, e fazer exigia que outra pessoa dissesse sim.

A noite de 22 de maio

Na noite de 22 de maio ele posta de novo.

Duas caixas de pizza na bancada da cozinha, uma aberta com pepperoni, e um notebook antigo ao lado, cena do bitcoin pizza day
Cena que imagina a chegada das duas pizzas na noite de 22 de maio de 2010, numa cozinha comum. Ilustração gerada por IA.

Quero relatar que troquei com sucesso 10.000 bitcoins por pizza.

Tem um link para fotos. Ele agradece pelo apelido de fórum a quem organizou. Três horas depois um dos primeiros desenvolvedores responde curto: parabéns, um marco alcançado. O tópico segue para outros assuntos.

Ninguém naquela sala achou que a data seria lembrada todo ano. Um aviso de que duas pizzas chegaram, e uma linha de parabéns. Não havia aniversário, nem nome para o dia, nem hashtag. Tudo isso foi grudando ao longo de dezesseis anos.

O próprio homem não fala mais nada sobre o assunto no tópico. Fez a coisa, relatou, e pronto.

Enquanto isso, num lugar onde ninguém estava olhando, uma coisa tinha acontecido. O pagamento entrou no registro às 2010-05-22 18:16:31 UTC, no bloco 57.043. Desde então 910.360 blocos foram empilhados por cima, e o lançamento ficou embaixo exatamente como foi escrito.

Essa é a metade que a gente consegue conferir em vez de repetir.

Diagrama do pagamento de dez mil bitcoins como ficou registrado no bloco 57043 mostrando cento e trinta e uma entradas vindas de um único endereço incluindo cento e onze pedaços de um centésimo de moeda, uma saída única de dez mil moedas, a taxa de quase uma moeda que sobrou, e as moedas saindo de novo no bloco seguinte divididas em dois pedaços - Cryptonakta
Uma saída redonda e uma taxa em que ninguém pensou.

Abri a transação dezesseis anos depois

Então eu abri. Não precisa de conta nem de ter nada. Cola o identificador da transação num explorador de blocos e aparece a mesma tela de qualquer país. Li duas vezes no mesmo dia para confirmar que os valores se repetiam. A transação está aqui.

O que aparece não tem nada de extraordinário. Uma hora, um número de bloco, uma lista do que entrou e outra do que saiu. É mais simples que um extrato bancário.

Bloco é um pacote de transações embrulhadas juntas. Um pacote novo fecha mais ou menos a cada dez minutos e, depois de fechado, o conteúdo não muda. É por isso que esse extrato não mexeu uma letra em dezesseis anos.

Comece pelo que saiu. Existe uma saída única: exatamente 10.000 moedas, para um endereço. Sem troco de volta, sem segundo destinatário, sem partir nada. Um número redondo saindo de uma carteira de uma vez só.

Foi o lado da entrada que me segurou ali. O pagamento foi montado com 131 pedaços soltos, e todos saíram do mesmo endereço.

Aqui moeda não é saldo numa conta. Uma carteira guarda um monte de pedaços separados, cada um sobra de algum pagamento anterior. Para enviar um valor você junta pedaços até dar. Lembra mais pagar com as notas do bolso do que fazer uma transferência.

Por isso o formato da entrada mostra o que tinha naquele bolso. O maior pedaço era de 3.753,88 moedas. Depois uma fileira de pedaços grandes e redondos. E no fim 111 pedacinhos de 0,01 moeda cada um, que somam 1,11 moedas entre todos.

Esses cento e onze restinhos são o que fica na cabeça. Alguém vasculhou os cantos de uma carteira para chegar num número redondo. Fez isso para pedir o jantar.

Isso também fez a parte anterior da história ler diferente. A imagem que costuma ser passada é a de um cara jogando fora dez mil moedas como se não fossem nada. O formato que ficou no registro não é esse. É o de alguém contando pedaços para chegar num número que tinha prometido.

E tem mais uma coisa que ninguém comenta. Somando as entradas dá 10.000,99 moedas. A saída é 10.000. A diferença, 0,99 moedas, ficou na mesa para quem minerasse o bloco.

É assim que taxa funciona por aqui. Não existe um campo onde digitar uma. Tudo que você põe e não manda vira a taxa, e em 2010 o programa era relaxado com as sobras porque elas não valiam nada para ninguém. No preço do momento em que conferi, essa sobra dá 389.520 reais.

A outra coisa que vale saber é que a taxa quase não depende do valor enviado. Ela é cobrada pelo espaço que a transação ocupa no bloco. Esta tinha 23.620 bytes, bastante coisa, porque descrever 131 entradas ocupa lugar. A mesma regra continua rodando hoje e é o motivo de as taxas de rede se comportarem do jeito que se comportam.

CampoO que o registro diz
Bloco57.043
Hora anotada no bloco2010-05-22 18:16:31 UTC
Entradas131 pedaços, todos de um endereço
Maior pedaço3.753,88 moedas
Menores pedaços111 de 0,01 moeda, 1,11 no total
Total que entra10.000,99 moedas
Saída10.000 moedas para um endereço
Taxa0,99 moedas
Tamanho23.620 bytes

Sobrava uma última coisa no fim. As dez mil moedas chegaram naquele endereço e saíram de novo no bloco seguinte, uns 9,6 minutos depois. Saíram em dois pedaços, 5.777 e 4.223 moedas, e um dos endereços para onde foram se esvaziou por completo na mesma noite.

Isso não diz quem era ninguém. Endereço não é pessoa, e o registro só mostra que moedas se moveram entre endereços. O tempo mesmo assim diz alguma coisa. Ninguém tratou essas moedas como troféu. Chegaram, foram quebradas em pedaços utilizáveis em menos de dez minutos e continuaram circulando.

A carteira que pagou coloca a escala no lugar. Ao longo da vida aquele endereço recebeu 81.432 moedas em 3.355 transações, e hoje tem poeira. Isso não era a reserva de uma vida guardada com cuidado. Era uma carteira em uso pesado.

Se você quiser ver com os próprios olhos, agora é uma hora tão boa quanto outra. Abra um explorador de blocos, clique na transação linkada acima e depois no endereço que recebe. Você vai ver a tela que eu vi. Qualquer explorador serve, porque todos leem o mesmo registro.

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O endereço continua recebendo

Eu apostava que o endereço que recebeu as moedas era um beco sem saída. Abri para confirmar isso e seguir em frente.

Não era.

Chegou dinheiro lá 15 vezes diferentes desde aquele dia de 2010. Pouco dinheiro: 0.00379983 moedas no total. Mas continua chegando, espalhado por 7 anos diferentes.

DataMoedasSatoshisCaiu em 22 de maioPagou muitos endereços de uma vez
2015-04-190.000110.000
2017-07-040.001100.000
2018-10-230.000011111.111
2020-02-040.00141482141.482
2023-01-240.000011.000sim
2023-05-220.00000546546sim
2024-05-220.00000546546sim
2024-05-250.00000546546
2024-05-250.00000546546
2024-07-070.00000546546sim
2024-10-070.00001011.010
2024-12-130.00000546546sim
2026-03-310.00000571571sim
2026-05-220.0005509755.097sim
2026-05-220.0006643666.436sim

As datas são onde isso vira. 4 dessas chegadas caíram em 22 de maio, o aniversário do pagamento.

Duas entraram no mesmo dia com menos de uma hora de diferença, e são os dois maiores presentes da lista. Se essas duas pessoas se conheciam, ou se cada uma lembrou da data por conta própria, não está escrito no registro. O que está escrito é que na mesma tarde duas pessoas pensaram no mesmo endereço.

Olhe a coluna de satoshis e 6 desses pagamentos são de exatamente 546 satoshis.

Satoshi é a menor unidade que o sistema sabe escrever, a centésima milionésima parte de uma moeda. 546 não é número que alguém escolhe por acaso. É o piso abaixo do qual a rede considera que uma saída é poeira e se recusa a repassar. Seis pessoas diferentes mandaram a menor quantia que é fisicamente possível mandar.

Ninguém está enriquecendo ninguém. Estão assinando um livro de visitas. Alguém descobriu qual é o menor gesto que a rede permite e fez esse gesto, no endereço onde aterrissou a primeira compra de verdade. Não existe placa em lugar nenhum. O endereço é a placa, e qualquer pessoa do mundo pode acrescentar um nome nela.

Leia a tabela por ano e aparece outra coisa. As chegadas de 2015, 2017, 2018 e 2020 caem em datas espalhadas: abril, julho, outubro, fevereiro. Havia gente que conhecia o endereço e mandava alguma coisa, mas ninguém estava olhando o calendário. As chegadas no dia 22 de maio começam em 2023, e desde então aparecem naquela data todo ano. Ninguém anunciou. As datas se juntaram sozinhas.

Aqui eu preciso ser honesto sobre uma coisa, porque seria fácil deixar a história mais bonita do que a evidência aguenta. Nem toda chegada é homenagem. Tem quem mande quantias mínimas para endereços conhecidos em lote, centenas de uma vez, por motivos que nada têm a ver com sentimento. Contar esses como peregrinos seria inflar a minha própria história.

Então tracei uma linha que dá para enunciar sem rodeio. Uma transação que paga dez ou mais endereços ao mesmo tempo conta como disparo em massa e não como presente.

Por essa regra, 4 das 15 chegadas foram disparos. Duas pagaram mais de cem endereços numa transação só, uma delas 201. As 11 restantes parecem deliberadas e somam 0.0037732 moedas entre todas.

É um palpite vestido de aritmética e tem bordas moles. Alguém sincero pode estar usando uma carteira que agrupa pagamentos, e quem dispara poeira mirando um endereço por vez passaria limpo pelo meu filtro. A rede registra valores e endereços, nunca motivos. O que sobrevive é o calendário. Disparo automático não sabe que dia é hoje.

Gráfico de todos os envios recebidos depois de 2010 pelo endereço que ficou com as moedas da pizza mostrando as datas se concentrando no dia vinte e dois de maio, vários pagamentos de exatamente quinhentos e quarenta e seis satoshis que é o menor valor repassado pela rede, e marcados à parte os envios que foram para muitos endereços de uma vez - Cryptonakta
O aniversário aparece nos dados sem ninguém ter anunciado.

O que endureceu na repetição

Essa história é repetida milhares de vezes por ano e cada versão copia a anterior. Os dados endurecem enquanto viajam. Lendo o original, achei vários que já tinham secado.

O que secou mais duro são os 41 dólares. Como você viu, saíram de uma conta com dez mensagens, chutando de passagem, quatro dias antes de chegar qualquer pizza.

Também fui atrás da cotação real de maio de 2010. Um serviço tocado na mão publicava um preço para a moeda naquela época e as páginas antigas dele estão guardadas num arquivo da web. O texto explicativo continua lá, e as instruções para negociar com o dono também. A tabela de preços em si não sobreviveu na cópia que consegui ler. Por isso este artigo não diz quanto valiam então.

A rede de pizzarias é o mesmo tipo de problema. Muitos artigos citam uma marca, e uma marca aparece no tópico. O contexto é outro: o comprador estava explicando que muitas pizzarias já aceitavam pedido pela internet e citou uma que usavam em casa. Isso não é recibo. Não sei o que chegou naquela porta.

Os endereços também são trocados. Ele mantinha um endereço de doação na assinatura de cada mensagem, e esse não é o que bancou o pagamento. Comparando, os históricos diferem. O erro é fácil de cometer, porque o da assinatura é o que fica impresso dentro do texto citado e é o que as pessoas copiam.

Você também vai ler que as dez mil moedas continuam naquele endereço. Não continuam. Saíram dez minutos depois de chegar. O que existe hoje é o trocado que as pessoas foram mandando.

E aí tem a fórmula que chama isso de pior negócio da história. Essa é a que eu menos gosto, e não é só por ser deselegante. Ela inverte a ordem dos fatos.

As moedas não tinham um preço real que ele torrou. Ele foi descobrir se elas podiam chegar a ter preço, e levou quatro dias sem conseguir dar as moedas de graça. Chamar o resultado de erro exige já saber a resposta da pergunta que ele estava fazendo.

Quanto dá isso, e o que fica

Agora a parte com prazo de validade. Tudo acima está fixo no registro e vai ler igual daqui a dez anos. Os números abaixo eram verdade no momento em que conferi e já estão um pouco defasados.

Os preços vieram de 4 fontes públicas ao mesmo tempo, em 2026-09-17 11:38 UTC. O registro da rede foi consultado duas vezes no mesmo dia para conferir se os valores se repetiam.

O quêEm moedasEm reais no momento da conferência
O pagamento10.0003,9 bilhões
A taxa que sobrou para quem minerou0,99389.520
Uma moeda inteira1393.454

O valor em reais veio do livro público de um mercado que cota nessa moeda. O preço em dólar eu peguei de 4 fontes ao mesmo tempo e as quatro divergiam entre si em 0,096 por cento. Não existe um preço oficial único para esse ativo, e só isso já rende outro artigo.

Ao converter você vai notar mais uma coisa. O preço em real raramente bate com o preço em dólar passado pela cotação publicada, e costuma ficar acima. Esse excesso é chamado de ágio, e ele não está na cripto: está no que custa comprar dólar com a moeda local.

Não vou fazer a conta de quanto essas moedas valeriam se ele tivesse guardado. É uma multiplicação e acabei de te dar os dois números.

O que essa conta esconde é que as moedas só passaram a valer alguma coisa depois porque coisas como esta aconteceram antes. Em maio de 2010 não havia preço digno do nome, porque não havia nada para comprar. Uma moeda que não compra o jantar é uma planilha. Alguém precisava ir primeiro, e ir primeiro significava entregar uma quantidade que parece absurda depois que a coisa tem preço.

Os quatro dias de silêncio medem isso melhor que qualquer gráfico da época. Dez mil moedas não conseguiam fazer uma pizza chegar. Era isso que o ativo valia na prática, e nada diz isso com a clareza de um homem perguntando ao fórum se deveria oferecer mais.

Ler uma história é um motivo ruim para mudar o que você faz com o seu dinheiro. Ainda assim, três coisas desta são práticas.

Você vai acabar lidando com satoshi mesmo sem perceber. Uma moeda são cem milhões deles, e o piso de 546 satoshis deste artigo é um limite real. Você esbarra nele quando uma sobra mínima se recusa a sair.

As taxas são cobradas por tamanho e não por valor. Um pagamento costurado com muitos pedacinhos sai mais caro que um grande e limpo, o que também explica por que mover moedas entre corretoras custa o que custa.

E o endereço é a instrução inteira. O pagamento de 2010 foi para onde o endereço mandou, em dez minutos, sem ninguém para ligar. É por isso que errar o endereço ou a rede é o erro que merece ser conferido duas vezes.

Mais uma coisa. Nada do que está neste artigo foi visto com acesso especial. A transação, o histórico do endereço, dezesseis anos de datas de chegada: está tudo aberto. Ninguém precisa te deixar entrar. Provavelmente essa é metade da razão de a história continuar viva: todo mundo poderia só copiar a versão anterior, e mesmo assim o original está ali para conferir.

Eu arquivava isso entre os erros caros. Depois de ler o tópico e o registro, arquivo entre os experimentos, e isso mudou a pergunta que eu faço para qualquer moeda que aparece.

Não quanto vale. O que ela consegue fazer, e quem aceitou recentemente que ela fizesse. Em maio de 2010 a resposta honesta para o bitcoin era quase nada, e um homem provou que dava para fazer exatamente uma coisa, uma vez, com um desconhecido, para jantar. Todo o resto é nota de rodapé.

Se você está começando, o chato importa mais que a anedota: como se compra de verdade, onde isso fica depois de ser seu e quando vale a pena um aparelho separado.

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Perguntas frequentes

Q. O que é o Dia da Pizza Bitcoin?
Lembra o dia 22 de maio de 2010, quando um homem na Flórida pagou dez mil bitcoins para receber duas pizzas em casa. Ele tinha publicado a oferta num fórum quatro dias antes e ninguém aceitou, a ponto de ele voltar e perguntar se estava oferecendo pouco demais. É lembrado porque é a primeira compra de uma coisa comum com essa moeda que qualquer um consegue apontar dentro do registro público.
Q. Quanto valem hoje esses 10.000 bitcoins?
No preço que conferi enquanto escrevia isto dava por volta de 3,9 bilhões de reais, e esse número se mexe a cada minuto. O que vale guardar é a multiplicação, não o total: o preço de uma moeda vezes dez mil, no valor que estiver quando você olhar.
Q. Valia mesmo 41 dólares na época?
Esse número saiu de uma resposta no mesmo tópico do fórum, publicada quatro dias antes de a pizza chegar, em que um leitor chutou quanto aquelas moedas renderiam num site de troca. Não é cotação oficial e ninguém negociou nesse preço. Procurei uma fonte original do valor de maio de 2010 e não consegui ler nenhuma, então este artigo não afirma quanto valia.
Q. Dá para eu ver a transação?
Dá, e você não precisa ter cripto nem criar conta. Ela está no bloco 57.043, com hora anotada 2010-05-22 18:16:31 UTC. Qualquer explorador de blocos mostra se você colar o identificador, e o link deste artigo abre direto. Tem uma saída só de dez mil moedas e cento e trinta e uma entradas.
Q. Por que a taxa foi de quase uma moeda inteira?
Porque taxa aqui é simplesmente o que você põe e não manda. As entradas somavam 10.000,99 moedas e a saída era de dez mil, então sobraram 0,99 moedas para quem minerou o bloco. Em 2010 o programa não cuidava dessas sobras porque elas não valiam nada. Além disso a taxa é calculada pelo tamanho da transação, e esta era volumosa por causa das 131 entradas.
Q. Quem recebeu as dez mil moedas?
O registro mostra um endereço, não uma pessoa, e não vou chutar além disso. O que ele mostra é que as moedas não ficaram paradas: saíram no bloco seguinte, uns 9,6 minutos depois, partidas em dois pedaços. No tópico, o comprador agradeceu pelo apelido de fórum a quem organizou o pedido.
Q. Por que as pessoas ainda mandam bitcoin para aquele endereço?
Como gesto. Chegou dinheiro lá 15 vezes desde 2010, 4 delas num dia 22 de maio, e 6 dos pagamentos são de exatamente 546 satoshis, que é o menor valor que a rede aceita repassar. Tudo junto soma 0.00379983 moedas. Parece mais assinar um livro de visitas.
Q. As dez mil moedas ainda estão naquele endereço?
Não. Saíram cerca de dez minutos depois de chegarem, no bloco seguinte, divididas em dois pedaços. O que resta hoje ali são os envios pequenos que as pessoas foram mandando ao longo dos anos.
Q. O que é um satoshi e por que 546 importa?
Satoshi é a centésima milionésima parte de uma moeda, a menor unidade que o sistema sabe escrever. 546 satoshis é o ponto abaixo do qual a rede trata uma saída como poeira e não repassa. É por isso que várias das homenagens deste artigo são exatamente desse valor, e também por isso que uma sobra bem pequena às vezes não sai da carteira.
Q. Essa transação pode ser cancelada ou apagada?
Não. Depois que ela entra num bloco e outros blocos se empilham em cima, o conteúdo não volta atrás. Desde aquele pagamento foram 910.360 blocos. É por isso que dá para ler hoje igual a dezesseis anos atrás, e pelo mesmo motivo um envio errado também não se desfaz: não existe a quem pedir o estorno.
Q. Como me cadastro na Binance, passo a passo?
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Q. Existe um registro de bitcoin mais antigo que o pagamento da pizza e que dá para abrir?
Existe. O primeiro bloco, datado de 3 de janeiro de 2009, continua no registro e traz dentro a manchete de capa do Times daquele dia. O endereço ligado a ele recebe pagamentos há anos e nunca mandou nada para fora. Abrimos o bloco e lemos esses pagamentos em a história da carteira do Satoshi.
Q. Dá para ver hoje a transação das pizzas?
Dá. Cole o TXID dela em qualquer explorador de bitcoin e o registro de 2010 abre do jeito que foi gravado. Desde então os blocos continuam se empilhando em cima, então as confirmações dela seguem subindo até hoje. No guia de TXID mostramos como consultar um TXID e ler a tela que aparece.
Sobre as fontes: os dados da transação, o histórico do endereço e os envios posteriores foram lidos direto do registro público, por um serviço aberto que não pede conta, e consultados duas vezes no mesmo dia para comparar os valores. As citações vêm de uma cópia arquivada do tópico original de 2010, que eu mesmo li, porque o tópico ao vivo não carregava para mim. Os preços saíram de quatro fontes públicas no mesmo instante e valem só para aquele instante; o valor em reais veio do livro público de um mercado que cota nessa moeda. Não encontrei fonte original da cotação de 2010, então nenhuma é afirmada aqui. O nome da pizzaria, a identidade por trás de qualquer endereço e o que o comprador pensou depois ficam fora do que consegui verificar, então não aparecem. Nada disto é recomendação de investimento nem previsão sobre o que qualquer ativo vai fazer.

A seguir: o que você está pagando exatamente numa taxa de rede

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