Como o livro de ofertas decide, linha por linha, o preço que você paga
O percurso de uma ordem a mercado, os três custos que entram junto e o que medimos em livros públicos
| Pergunta | Resposta curta |
|---|---|
| O preço grande em destaque na tela | É o preço do último negócio que já foi fechado. Ele não é o preço da sua próxima compra. |
| Quem define o preço que você paga | As ordens limitadas paradas do outro lado. Uma linha por preço, com a quantidade que ainda sobrou ali. |
| O que a ordem a mercado faz | Consome essas linhas de cima para baixo até completar o valor. O preço que sai é a média dessas linhas. |
| Custos que entram na mesma ordem | A taxa, a diferença entre as duas pontas do livro e a derrapagem. Só a taxa aparece na tela do pedido. |
| O que decide a derrapagem | A quantidade que está parada naquele ativo. Com pouca quantidade parada, o mesmo valor custa mais. |
| O piso da diferença entre as pontas | O passo de preço do ativo. Se um passo pesa 0,33% do preço, a diferença não desce abaixo disso. |
| O limite da lista | Ela muda a cada instante, e qualquer quantidade parada pode ser cancelada a qualquer momento. |
1. O que acontece com a sua ordem entre o toque no botão e o preço que você paga
2. A checagem que vem antes: por que a corretora recusa uma ordem
3. O preço em destaque já aconteceu, quem decide o seu é a lista ao lado
4. Onde essa lista aparece no aplicativo do celular
5. De cima para baixo: como três linhas do livro viram um preço médio
6. Quando a ordem não executa na hora, ela entra na fila por preço e por horário
7. Três custos entram na mesma ordem e a tela mostra só um
8. A diferença entre as duas pontas é paga na ida e na volta
9. O menor passo de preço do ativo define o piso dessa diferença
10. Por que o mesmo valor custa mais em um ativo do que em outro
11. A mesma moeda em duas corretoras, medida no mesmo minuto
12. O que a ordem a mercado troca pela ordem limitada
13. O que o livro não mostra, e o que a nossa medição também não mostra
14. Minha leitura: uma tela que cobra três custos e exibe um
15. Glossário: as palavras deste texto em português simples
Você abre o aplicativo, digita o valor em reais e toca em comprar. Na tela tem um preço grande, em destaque. Alguns segundos depois, nos detalhes da ordem, aparece outro número, o preço médio que saiu de verdade. Esses dois quase nunca batem. Isso não é falha do aplicativo, e aqui a gente vai atrás de onde essa diferença aparece e de quanto ela custa. Os números que aparecem aqui são medições nossas, feitas em 2 de setembro de 2026 sobre livros públicos de ofertas.

1. O que acontece com a sua ordem entre o toque no botão e o preço que você paga
Entre o toque no botão e o número que fica registrado no seu extrato existe um percurso curto e sempre igual. Ele não muda se a compra é de vinte reais ou de vinte mil. O que muda é quanto cada etapa dele custa.
São cinco etapas, nesta ordem:
- Você confirma o pedido. O aplicativo monta uma ordem com o ativo, o lado, a quantidade e, no caso da ordem limitada, o preço que você digitou.
- A corretora confere a ficha do ativo. Cada par tem limites próprios de preço, de quantidade e de valor mínimo. Pedido fora deles volta recusado antes de chegar ao mercado.
- O pedido encontra a lista do outro lado. Quem compra encontra a lista de vendas paradas, e quem vende encontra a de compras paradas. Essa lista é o livro de ofertas.
- A ordem consome as linhas de cima para baixo. Se a primeira linha não tem quantidade suficiente, a execução continua na seguinte, num preço um pouco pior, até fechar o valor.
- Sai um preço médio. O extrato mostra a média das linhas consumidas, e a taxa vem depois, calculada sobre o valor executado.
O que é ordem a mercado, o que é ordem limitada e quais variações cada tela oferece está no texto sobre tipos de ordem em cripto. Aqui o assunto começa um passo depois, com o pedido já enviado.
Sobre os números: consultamos os livros públicos de ofertas em 2 de setembro de 2026, entre 04:44 e 04:46 no horário UTC, e refizemos uma compra linha por linha, três vezes para cada valor. Todo número deste texto vem dessa medição ou da documentação pública da corretora.
2. A checagem que vem antes: por que a corretora recusa uma ordem
Antes de qualquer execução existe uma conferência. A corretora olha o pedido, compara com a ficha daquele ativo e só então deixa passar. Essa ficha é pública e cada par negociado tem a sua. É o primeiro obstáculo real de quem compra pouco, e ele chega como uma mensagem curta de erro, sem explicar o que aconteceu.
Os cinco limites que costumam recusar um pedido
1. O preço precisa ser múltiplo do passo de preço. O passo é o menor pedaço de preço que existe naquele ativo. Se o passo é de um centavo, não existe preço com meio centavo ali. A documentação da Binance define o passo como o intervalo em que um preço pode subir ou descer, com a condição de que o preço dividido pelo passo não deixe resto.
2. A quantidade precisa ser múltiplo do passo de quantidade. Esse é o que mais confunde. Em alguns ativos o passo de quantidade é 1, ou seja, a quantidade tem que ser inteira e casa decimal não entra. Na consulta que fizemos, HBARUSDT e CTSIUSDT estavam assim, enquanto BTCUSDT tinha passo 0,00001. Quando você digita um valor em reais e o aplicativo converte para quantidade, é aqui que ele arredonda.
3. O pedido tem um valor mínimo. Nos oito pares que consultamos, o mínimo era 5 USDT. Em corretora que negocia na moeda do próprio país o número muda. A Upbit, casa sul-coreana que negocia em won, registra na documentação um mínimo de 5.000 wons.
4. A ordem a mercado tem um teto de quantidade próprio, separado do teto da ordem limitada. No spot da Bybit, em BTCUSDT, a consulta devolveu 230 BTC como máximo por ordem limitada e 120 BTC por ordem a mercado. A documentação avisa que esses tetos são ajustados nos dias 3 e 17 de cada mês, às 08:00 no fuso UTC+8. Não vale decorar o número, vale saber que ele existe e muda conforme o tipo de ordem.
5. O preço digitado tem um teto e um piso. Um filtro limita quanto o preço da sua ordem pode se afastar da referência do momento. Nos oito pares consultados, o multiplicador era 1,2 na compra e 0,8 na venda. Preço fora dessa janela volta recusado.
| O que apareceu na tela | Em qual limite bateu | O que olhar na ficha do ativo |
|---|---|---|
| O preço digitado não é aceito | O preço não é múltiplo do passo de preço | O passo muda de ativo para ativo, e muda bastante. |
| A quantidade não é aceita | A quantidade não é múltiplo do passo de quantidade | Existe ativo com passo 1, que não aceita casa decimal nenhuma. |
| O pedido é pequeno demais | Valor mínimo por ordem | Nos oito pares consultados era 5 USDT. |
| A ordem a mercado grande não entra | Teto de quantidade que vale só para ordem a mercado | É separado do teto da ordem limitada e a corretora revisa em datas fixas. |
| O preço está fora do intervalo | Teto e piso para o preço da ordem | Na consulta, multiplicador de 1,2 na compra e 0,8 na venda. |
Vale separar duas recusas que parecem iguais na tela. Uma coisa é o pedido bater num limite do ativo, como os cinco acima. Outra é faltar saldo para sustentar a posição, o que acontece em conta com margem e segue outra lógica, tratada no texto sobre margem isolada e margem cruzada.
3. O preço em destaque já aconteceu, quem decide o seu é a lista ao lado
O número grande no topo da tela é o preço do último negócio fechado. Alguém comprou, alguém vendeu, o negócio saiu e o aplicativo passou a exibir aquele valor. Nada nesse número promete que você vai conseguir o mesmo preço no segundo seguinte.
Quem decide o seu preço é a lista que fica ao lado. O livro de ofertas é a relação das ordens limitadas que ainda não foram executadas. Cada linha tem duas informações e só duas: um preço e a quantidade que ainda está parada naquele preço.
A organização é simples. Do lado de quem quer vender, a lista começa pelo preço mais barato e vai subindo. Do lado de quem quer comprar, começa pelo mais caro e vai descendo. As duas primeiras linhas, uma de cada lado, são o que o mercado chama de as duas pontas do livro: a melhor oferta de compra e a melhor oferta de venda. A distância entre elas tem um custo, e esse custo não está escrito em nenhum campo do pedido.
4. Onde essa lista aparece no aplicativo do celular
No Brasil quase toda compra de cripto começa pelo celular, e a tela inicial do aplicativo costuma ser a versão simplificada: um campo para o valor em reais, uma seta de conversão e um botão grande de comprar. Nessa tela o livro de ofertas não aparece. Você digita, confirma, e o resultado chega pronto.
O livro fica na tela de negociação completa, atrás de uma aba. O nome dessa aba muda de aplicativo para aplicativo e muda até entre versões. O mais seguro é procurar pelo formato: duas colunas de números empilhados, com fundo vermelho em cima e verde embaixo, cada linha com um preço à esquerda e uma quantidade à direita. Essa é a lista. Do lado dela costuma ter um seletor de agrupamento, que junta várias linhas de preço numa só para caber na tela pequena. Com o agrupamento ligado, o livro parece mais organizado do que está.
Onde aparece o preço que você pagou de verdade
O preço médio da execução não aparece antes. Ele aparece depois, no histórico, dentro dos detalhes da ordem executada, num campo que costuma se chamar preço médio. Esse é o número que interessa para conferir o custo. Por exemplo: se o pedido foi de R$ 1.000 e o preço médio ficou 0,20% acima do que estava no meio das duas pontas no momento do envio, o custo escondido daquela compra foi de R$ 2, além da taxa.
Duas observações sobre essa tela. Quando você digita um valor em reais no lugar de uma quantidade, o aplicativo converte e arredonda para o passo de quantidade do ativo, então o executado pode ficar alguns centavos abaixo do digitado. E o mesmo ativo tem livros separados no mercado spot e no de futuros, com preços e quantidades diferentes, o que está no texto sobre spot e futuros.
A lista de ativos e de mercados que aparece na sua tela também muda conforme a região onde a conta foi aberta. O jeito de saber o que está disponível para você é olhar a sua própria tela.
5. De cima para baixo: como três linhas do livro viram um preço médio
A ordem a mercado não escolhe preço. Ela dá uma instrução diferente: pegue o que estiver parado do outro lado, de cima para baixo, até completar o que eu pedi.
Suponha um livro assim, com números redondos só para a conta ficar visível:
- melhor oferta de compra: 9,99.
- melhor oferta de venda: 4 unidades a 10,00.
- linha seguinte: 3 unidades a 10,01.
- terceira linha: 8 unidades a 10,02.
Você envia uma ordem a mercado para comprar 10 unidades. A execução acontece assim:
- 4 unidades a 10,00, o que dá 40,00
- 3 unidades a 10,01, o que dá 30,03
- faltam 3 unidades, que saem a 10,02 e dão 30,06
Total: 100,09 por 10 unidades. O preço médio da sua ordem foi 10,009. Repare que ele não existe em nenhuma linha do livro. Ele é o resultado da soma, dividido pela quantidade.
Falta o ponto de comparação. Antes do envio, o meio do caminho entre as duas pontas era 9,995, a média entre 9,99 e 10,00. O mercado chama esse valor de ponto médio. Sua média de 10,009 ficou 0,14% acima dele. Essa distância tem nome: derrapagem, ou slippage nas telas em inglês. São 14 pontos base, e 1 ponto base equivale a 0,01%. Em dinheiro, 0,14% de R$ 1.000 dá R$ 1,40.
Duas conclusões saem direto dessa conta, e valem para qualquer ativo e qualquer valor:
- Se a primeira linha cobre o seu pedido, sobra o mínimo. Comprando 4 unidades no exemplo acima, tudo sai a 10,00, que fica 0,05% acima do ponto médio. Daí não desce mais, porque isso é metade do espaço entre as duas pontas.
- Quanto mais linhas o pedido consome, pior fica a média. As linhas seguintes já saem por um preço pior que a primeira, e todas entram na mesma média.
E um ponto que gera muita confusão: esses 0,14% não vão para a corretora. Não existe cobrança de derrapagem, não existe linha de derrapagem no extrato. O dinheiro foi para quem tinha ordens limitadas paradas nas linhas de cima, que venderam mais caro do que quem estava na primeira linha. A taxa é outra coisa, é cobrada à parte e essa sim aparece na tela.
6. Quando a ordem não executa na hora, ela entra na fila por preço e por horário
Nem toda ordem executa na hora. Se o preço que você digitou numa ordem limitada não encontra ninguém do outro lado, o pedido não some nem é recusado: ele fica parado no livro e vira uma daquelas linhas. Para quem chegar depois com uma ordem a mercado, você agora é a quantidade parada.
Dentro do livro existe uma ordem de atendimento, e ela tem dois critérios, nesta sequência. Primeiro o preço: quem oferece o preço melhor é atendido antes. Depois o horário: entre ordens do mesmo preço, quem chegou primeiro executa primeiro. É a prioridade por preço e depois por tempo.
Cancelar e reenviar não é o mesmo que reduzir a quantidade
Essa diferença está na documentação para desenvolvedores da Binance e tem efeito prático direto. Quando você cancela uma ordem e envia outra, mesmo que no mesmo preço, o pedido novo recebe um horário novo e passa a ser executado depois de todas as ordens que já estavam naquele preço. Você perdeu o lugar na fila.
Já a alteração que apenas reduz a quantidade tem tratamento próprio: a documentação descreve uma operação que mantém a prioridade, em que só a quantidade muda e o lugar na fila continua o mesmo. Mexer no preço e mexer na quantidade dão resultados diferentes, mesmo parecendo dois ajustes igualmente pequenos na tela.
Quem fica na fila paga em tempo, e nenhuma tela mostra esse custo. A ordem limitada pode não ser preenchida. Enquanto ela espera alguém do outro lado, o preço pode ir embora na direção contrária e não voltar. Aí você não pagou derrapagem, não pagou a diferença entre as pontas, e também não comprou nada.
Vale uma observação sobre ordens condicionais. Uma ordem de stop fica guardada até o preço de disparo ser atingido, e no momento em que dispara ela vira uma ordem comum, que passa por este mesmo livro. O texto sobre ordem stop loss trata do disparo; o que acontece depois é exatamente o que este texto descreve.

7. Três custos entram na mesma ordem e a tela mostra só um
Toda ordem executada carrega três custos, e eles têm origens diferentes. Só um deles está escrito na tela do pedido.
A taxa é o percentual que a corretora cobra sobre o valor executado. No spot da Binance, a tabela pública mostra 0,100% para quem coloca a ordem no livro e para quem tira, com 0,075% pagando em BNB. Na Upbit, que negocia em won, a taxa do spot é 0,05%. Em dinheiro, 0,10% de R$ 1.000 dá R$ 1. É o único dos três que você confere antes de confirmar.
A diferença entre as duas pontas, que o mercado chama de spread, é o espaço entre a melhor oferta de compra e a melhor oferta de venda. Ela não aparece em campo nenhum do pedido: para saber quanto é, você abre o livro e olha as duas primeiras linhas.
A derrapagem é a distância entre o preço médio que saiu e o ponto médio de antes. Ela só pode ser conferida depois da execução.
| Custo | Aparece na tela do pedido? | Quem define | Quando cresce |
|---|---|---|---|
| Taxa | Sim, antes e depois da execução | A política da corretora | Conforme o seu nível e os descontos aplicados |
| Diferença entre as pontas | Não. Você lê direto no livro | O passo de preço e as ordens paradas naquele instante | Quando um passo pesa muito dentro do preço do ativo |
| Derrapagem | Não. Só depois, no preço médio da ordem | A quantidade parada nas primeiras linhas | Quando o pedido passa da quantidade da primeira linha |
Daí vem a consequência mais útil desta seção: comparar corretoras só pela taxa olha um custo de três. Em ativo com pouca quantidade parada, os outros dois passam a taxa com folga, e a diferença entre uma casa e outra some diante disso. Quem está comparando o custo total de uma compra encontra o resto da conta, incluindo depósito e conversão de moeda, no texto sobre a forma mais barata de comprar bitcoin.
8. A diferença entre as duas pontas é paga na ida e na volta
A diferença entre as duas pontas tem uma característica que a taxa não tem: ela é paga na ida e na volta, e o efeito aparece mesmo quando o preço fica exatamente onde estava.
Vale fazer a conta devagar. Você compra pela melhor oferta de venda e, um segundo depois, vende pela melhor oferta de compra. O preço do ativo não se moveu. Ainda assim você começa negativo, porque comprou pelo preço de cima e vendeu pelo de baixo. Se essa distância é de 0,20%, comprar e vender na hora um pedido de R$ 1.000 já sai com R$ 2 de desvantagem, e as duas taxas entram por cima, uma na compra e outra na venda.
Nas nossas medições, essa distância variou muito entre ativos do mesmo mercado. Na Upbit, em 2 de setembro de 2026, o bitcoin estava com 0,28 ponto base entre as duas pontas, o que é 0,0028%. Um ativo de baixo giro marcou entre 17 e 35 pontos base, e um terceiro estava em 98,5, perto de 0,99%. A taxa desse mercado é 0,05%, ou seja, a distância entre as pontas era cerca de vinte vezes a taxa naquele instante.
Existe um caso em que essa conta decide tudo: quando a estratégia consiste em fazer muitas idas e voltas curtas. Um robô de grid divide uma faixa de preço em linhas e compra e vende entre elas. Se o espaçamento entre duas linhas for menor que a soma da diferença entre as pontas com as duas taxas, cada ciclo fecha no vermelho mesmo quando o movimento acontece do jeito planejado. O texto sobre robô de grid trading mostra como essas faixas são montadas, e a conta desta seção é a que decide se a faixa cabe.
Quem compra e vende uma vez paga essa distância uma vez; o robô de grid paga em cada ciclo. Dobrou o número de idas e voltas, dobrou esse custo. O tempo que o ativo passa parado na carteira não muda nada nessa conta.
9. O menor passo de preço do ativo define o piso dessa diferença
Por que alguns ativos têm as pontas tão longe uma da outra? Parte da resposta é estrutural e não depende de quem está negociando: existe um piso, definido pelo passo de preço.
O passo de preço é o menor pedaço de preço que existe naquele ativo, e todos os preços possíveis são múltiplos dele. Não dá para digitar um valor entre dois passos: a ficha do ativo recusa o pedido.
Daí sai uma regra que continua valendo com qualquer preço de mercado: se um passo pesa 0,33% do preço, as duas pontas do livro não conseguem ficar mais perto do que 0,33%. Nem que houvesse mil pessoas querendo negociar ali. Elas só teriam onde colocar as ordens a cada 0,33%. O passo é o piso da diferença.
Medimos quanto pesa um passo em cada ativo, no mesmo dia. Os números abaixo estão em pontos base, e 1 ponto base é 0,01%.
| Mercado | Passo mais leve | No meio da lista | Passo mais pesado |
|---|---|---|---|
| Spot em dólar (Binance) | BTCUSDT 0,001 | HBARUSDT 1,35 e BCHUSDT 4,01 | XVSUSDT 32,68, ou seja 0,33% |
| Upbit, em won, com tabela por faixa de preço | BTC 0,09 | XRP 5,4 e BONK 17,4 | SC 89,7, ou seja perto de 0,9% |
Repare no tamanho da distância dentro de uma mesma corretora: de 0,001 a 32,68 pontos base. É a mesma tela, o mesmo mecanismo, o mesmo tipo de ordem. O que muda é o ativo.
Por que o peso do passo muda tanto
Porque o passo é um valor fixo e o preço não. Um passo de uma unidade da moeda pesa 0,02% num ativo cotado perto de 5.000, e pesa 1% num ativo cotado perto de 100. É a mesma regra escrita na tabela, com resultado cinquenta vezes diferente.
Algumas corretoras, em vez de um passo único, publicam uma tabela por faixa de preço, em que o passo aumenta conforme o preço sobe. É o caso da Upbit. O efeito prático é que o peso do passo dá um salto quando o preço cruza uma fronteira de faixa: o ativo ganha um passo maior e o piso da diferença sobe junto.
Na sua tela isso é conferível em segundos: veja de quanto em quanto os preços mudam de uma linha para a outra no meio da lista. Aquele intervalo é o passo. HBARUSDT aparece na tabela acima como caso intermediário, e o perfil da moeda está no texto sobre o que é a Hedera.
10. Por que o mesmo valor custa mais em um ativo do que em outro
A intuição mais comum sobre custo de execução é que pedido pequeno não sofre derrapagem. A medição não sustenta essa ideia.
Como medimos a profundidade
Profundidade é quanto dinheiro está parado perto do preço atual. Para medir, pegamos o ponto médio entre as duas pontas e somamos tudo o que estava dentro de uma faixa de 0,1% para cada lado. A pergunta é objetiva: quanto cabe antes de o preço sair dessa faixa.
| Ativo (spot da Binance) | Parado do lado da venda | Parado do lado da compra | O que esse número quer dizer |
|---|---|---|---|
| BTCUSDT | 7,44 milhões de dólares | 6,27 milhões de dólares | Até esse valor, a execução acontece dentro de 0,1%. |
| HBARUSDT | cerca de 7.900 dólares | cerca de 11.300 dólares | Um pedido de dez mil dólares já passa dessa faixa. |
| CTSIUSDT | cerca de 50 dólares | cerca de 50 dólares | Passando de 50 dólares, a execução já sai dos 0,1%. |
Alargando a faixa para 1% para cada lado, o bitcoin tinha 17,10 milhões de dólares parados do lado da venda, e CTSIUSDT chegava a cerca de 10.660 dólares. Na mesma corretora e no mesmo minuto, um livro tinha mais de mil vezes o que o outro tinha parado.
O mesmo valor, ativos diferentes
Depois disso refizemos a compra linha por linha, com quatro valores e três repetições. Os números abaixo são a distância entre o preço médio da execução e o ponto médio de antes, em pontos base, com 1 ponto base igual a 0,01%.
| Ativo (giro de 24 h na Binance, no momento da medição) | Mil dólares | Dez mil | Cem mil | Um milhão |
|---|---|---|---|---|
| BTCUSDT (1.098 M) | 0,0 | 0,0 | 0,0 a 0,6 | 0,2 a 2,4 |
| ETHUSDT (712 M) | 0,0 | 0,0 | 0,6 a 1,2 | 3,8 a 4,2 |
| XRPUSDT (163 M) | 0,4 | 0,4 | 3,7 a 4,8 | 25,8 a 26,8 |
| LTCUSDT (17,8 M) | 1,0 | 2,3 a 5,4 | 12,6 a 14,9 | 329 a 334 |
| HBARUSDT (6,3 M) | 0,7 a 1,0 | 6,1 a 7,7 | 25,4 | 531 a 536 |
| BCHUSDT (7,9 M) | 2,0 | 2,0 a 2,9 | 13,6 a 14,9 | 1.018 a 1.036 |
| CTSIUSDT (0,1 M) | 16,2 a 22,7 | 45,2 a 46,4 | 2.064 a 2.080 | 38.969 a 39.034 (cerca de 390%) |
| XVSUSDT (0,1 M) | 16,4 | 75,9 a 79,7 | 2.864 a 2.874 | 18.904 a 18.916 (cerca de 189%) |
A leitura correta desta tabela é por coluna, comparando o mesmo valor em ativos diferentes. Com cem mil dólares, BTCUSDT ficou entre 0,0 e 0,6 ponto base, e CTSIUSDT ficou entre 2.064 e 2.080. Mesmo dinheiro, mesmo tipo de ordem, mesmo minuto, mesma corretora. O que mudou foi a quantidade que estava parada esperando.
Comparar valores diferentes entre linhas leva a conclusão errada. Um milhão de dólares em bitcoin saiu por 0,2 a 2,4 pontos base, enquanto mil dólares num ativo de giro baixo custaram 16 a 23. São valores mil vezes distantes, e essa dupla não diz nada sobre a diferença entre os dois livros.
O custo sai da quantidade que está parada naquele ativo. O valor que você envia só decide quantas linhas ele consome. Mil dólares em bitcoin marcaram 0,0. Mil dólares num ativo de giro pequeno marcaram de 0,16% a 0,23%, mais do que a taxa de quem tira a ordem do livro. Traduzindo para reais: 0,16% de R$ 5.000 dá R$ 8, que é mais do que os R$ 5 da taxa de 0,10% no mesmo valor.
Duas ressalvas sobre a coluna de um milhão. Nos ativos de giro baixo, aquele número sai de subir o livro visível como ele estava naquele instante, e é cálculo, não execução real. Uma ordem desse tamanho bateria antes no teto e no piso de preço da ficha do ativo. E teve caso em que a conta não fechou: com dez milhões de dólares, o livro visível de CTSIUSDT, XVSUSDT, HBARUSDT e LTCUSDT acabou antes de completar o valor.
11. A mesma moeda em duas corretoras, medida no mesmo minuto
As tabelas anteriores mostraram um livro de cada vez. Falta juntar duas telas: o mesmo ativo, no mesmo minuto, em duas corretoras diferentes.
Em BTCUSDT, para um pedido de um milhão de dólares, uma das corretoras marcou 0,2 ponto base e a outra 4,5. As duas distâncias são pequenas, e ainda assim uma é mais de vinte vezes a outra. Em HBARUSDT, para cem mil dólares, foram 25,4 pontos base em uma e 35,8 na outra. Para um milhão em HBARUSDT, uma delas marcou 531 pontos base, e na outra os 200 níveis que a interface pública devolve não bastaram para completar o valor.
Esse último caso registra um detalhe técnico: cada corretora publica um número diferente de linhas do livro. Na nossa coleta, um mercado devolvia 30 níveis, outro 200 e outro até 5.000. Com pedido grande e lista curta, a conta não fecha. Quem parou aí foi a nossa consulta, pelo tamanho da lista que ela recebe.
O que dá para reaproveitar é o jeito de olhar. Abra o livro do ativo nas corretoras em que você já tem conta e olhe duas coisas: a distância entre as duas pontas e as quantidades das primeiras linhas. Compare com o valor que você pretende enviar. Isso vale mais do que qualquer tabela publicada, inclusive a nossa, porque é o livro do seu momento. Uma visão geral das casas mais usadas está no texto sobre as melhores corretoras de criptomoedas.
Onde nós olhamos os livros
As medições cruzadas desta seção saíram dos mercados spot da Binance e da Bybit, no mesmo minuto. As outras casas abaixo têm livro próprio e filtros próprios por ativo, e os cartões trazem o código de indicação de cada uma. Nenhuma delas aparece aqui como mais profunda que outra.
Binance
Bybit
OKX
Gate.io
MEXC
KuCoin
Aviso de afiliados: alguns links são de parceiros. Podemos receber uma comissão sem custo extra para você. Isto não é recomendação de investimento.

12. O que a ordem a mercado troca pela ordem limitada
Com as etapas e os custos na mesa, dá para colocar os dois tipos de ordem lado a lado sem escolher um vencedor.
A ordem a mercado leva o que está parado agora, e o preço só aparece no fim, como média das linhas consumidas: o custo depende de quanto tem nas primeiras linhas. A ordem limitada inverte a sequência, fixa o preço antes e deixa a execução em aberto. Você não paga nada pior do que o valor digitado, e em troca assume o tempo de espera e a possibilidade de a ordem não ser preenchida.
| Item | Ordem a mercado | Ordem limitada |
|---|---|---|
| Execução | Acontece agora, se houver quantidade parada | Sem garantia |
| Preço | Sai como média das linhas consumidas | Nunca pior que o preço digitado |
| Custo que você assume | Diferença entre as pontas, derrapagem e taxa de quem tira a ordem do livro | Tempo de espera e o risco de a ordem não ser executada |
| Fila | Não entra na fila, consome o que está lá | Entra na fila, por preço e depois por horário |
| Teto por ordem | Pode ter um teto próprio e menor | Pode estar fixado acima do teto da ordem a mercado |
Sobre dividir um pedido em partes, a conta por trás é simples. Enviar tudo de uma vez faz a execução descer mais linhas do livro. Enviar aos poucos deixa cada parte pegar linhas melhores, só que entre uma parte e outra o preço se move, e ninguém sabe para que lado. Dividir troca derrapagem por risco de tempo, não elimina custo, e não existe número de partes que a gente possa recomendar porque não medimos nenhum. Quem organiza compras periódicas encontra a mecânica no texto sobre aporte recorrente.
Vale separar dois eventos que se confundem porque os dois terminam num preço ruim. Executar mais caro por falta de quantidade parada é o que este texto descreve, e acontece em qualquer compra à vista. Liquidação é outro procedimento, de posição alavancada, tratado no texto sobre por que fui liquidado.
13. O que o livro não mostra, e o que a nossa medição também não mostra
Tem coisa que o livro não mostra, e isso vale tanto para a sua tela quanto para os nossos números.
O que a tela não mostra
A lista publicada tem um limite de linhas, e esse limite muda de corretora para corretora. Abaixo da última linha publicada, a tela não mostra nada e não há como conferir. O livro também muda a cada instante: ordens são canceladas, novas chegam, e outras pessoas executam entre o momento em que você olhou e o momento em que o seu pedido chegou.
Vale saber até onde a tela chega. O que ela entrega é isto: o preço e a quantidade das linhas publicadas, naquele instante. Fora desse recorte não existe meio de conferir nada por ali, e por isso este texto não afirma nada além do que a lista mostra.
O que a nossa medição não mostra
Nossos números são o resultado de percorrer, com uma conta, o livro visível daquele instante. Quando medimos, nenhuma ordem foi enviada. Uma execução real acontece depois, num livro que já mudou, e pode sair melhor ou pior. A data de 2 de setembro de 2026 acompanha cada número por causa disso: os valores saíram do livro daquele dia e daquele horário, e o mecanismo descrito aqui não muda com a data.
| O que muita gente pensa | O que dá para afirmar |
|---|---|
| Uma ordem grande parada segura aquele preço. | Só dá para afirmar quanto está parado nesse preço agora. Nada na tela diz se aquilo continua no minuto seguinte. |
| Quem cobra a taxa menor sai mais barato no total. | Em ativo com pouca quantidade parada, a diferença entre as pontas e a derrapagem passam a taxa. |
| Pedido pequeno não sofre derrapagem. | O custo não é o valor que você manda, ele vem da profundidade do livro naquele minuto. Mil dólares num ativo de giro baixo custaram mais do que a taxa da mesma compra. |
| O que aparece na tela é o mercado inteiro. | A tela publica um número limitado de linhas e muda no instante seguinte. |
| A derrapagem vai para a corretora. | Ninguém recebe esse valor como cobrança. Ele é a diferença entre o preço médio da sua execução e o ponto médio de antes. |
14. Minha leitura: uma tela que cobra três custos e exibe um
Depois de rodar essas medições três vezes em cada valor e de comparar os resultados, o que mais me chamou atenção foi a distância entre dois números da mesma coluna, levantados no mesmo minuto.
O que achei mais relevante. Cem mil dólares custaram quase nada em um ativo e mais de 20% em outro, na mesma corretora e no mesmo minuto. A diferença veio de quanto tinha parado esperando, e isso inverte a pergunta que costuma ser feita antes de comprar. A pergunta útil é quanto tem parado nas primeiras linhas do ativo que eu escolhi.
Para quem isso é um problema, e para quem não é. Em ativo com muita quantidade parada, os três custos praticamente se resumem à taxa, porque a derrapagem medida ficou abaixo dela. Em ativo de giro pequeno a conta muda de lugar: ali os dois custos que não aparecem passam a taxa por várias vezes, e comparar corretoras pela tabela de taxas leva à conclusão errada. E quem faz muitas idas e voltas curtas tem na distância entre as pontas o item mais caro, porque ela entra em cada ciclo.
O ponto que me parece mais discutível. A taxa, que é o menor dos três custos em boa parte dos casos, aparece com destaque no pedido. Os outros dois, muito maiores em ativo de giro pequeno, ficam por conta do usuário, que precisa comparar o que estava na tela antes com o preço médio que apareceu depois. Nada disso é escondido, os dados estão publicados, e ainda assim a apresentação deixa o custo maior fora do campo de visão de quem confirma a compra.
Onde a opinião contrária se sustenta. Exibir uma estimativa de derrapagem antes da execução também tem problema: entre a exibição e a chegada do pedido o livro muda, e um número na tela é lido como promessa. Há quem prefira não exibir a expor um valor que não se sustenta um segundo depois. Some a isso que a ordem a mercado existe para ser executada agora, e conferir três custos antes de confirmar vai contra esse objetivo.
15. Glossário: as palavras deste texto em português simples
As palavras deste texto, explicadas em uma linha cada, com um exemplo curto para fixar.
Livro de ofertas
A lista das ordens limitadas que ainda não foram executadas, com um preço e uma quantidade por linha. Exemplo: uma linha que mostra 4 unidades a 10,00 quer dizer que existem 4 unidades esperando comprador nesse preço.
As duas pontas
A melhor oferta de compra e a melhor oferta de venda, ou seja, a primeira linha de cada lado. Exemplo: com melhor compra em 9,99 e melhor venda em 10,00, essas são as duas pontas do livro naquele instante.
Ponto médio
O meio do caminho entre as duas pontas. Exemplo: entre 9,99 e 10,00, o ponto médio é 9,995. É a partir dele que medimos a derrapagem neste texto.
Diferença entre as pontas (spread)
A distância entre a melhor compra e a melhor venda. Exemplo: com 0,20% de distância, comprar e vender na hora já começa com R$ 2 de desvantagem num pedido de R$ 1.000.
Derrapagem (slippage)
A distância entre o preço médio em que a sua ordem foi executada e o ponto médio de antes do envio. Exemplo: ponto médio de 9,995 e preço médio de 10,009 dão 0,14% de derrapagem. Ninguém cobra esse valor, ele é o resultado das linhas que a ordem consumiu.
Profundidade
Quanto dinheiro está parado perto do preço atual. Exemplo: na nossa medição, um ativo tinha 7,44 milhões de dólares dentro de 0,1% para o lado da venda, e outro tinha cerca de 50 dólares na mesma faixa.
Passo de preço
O menor intervalo entre dois preços possíveis naquele ativo. Exemplo: com passo de 0,1, existem preços 10,0 e 10,1, e não existe 10,05. O preço digitado precisa ser múltiplo do passo.
Prioridade por preço e por tempo
A regra da fila: primeiro o melhor preço, depois quem chegou antes. Exemplo: duas ordens no mesmo preço são executadas na ordem em que foram registradas, e uma ordem cancelada e reenviada volta para o fim daquela fila.
Maker e taker
Maker é quem deixa uma ordem parada no livro. Taker é quem chega e consome o que estava parado. Exemplo: uma ordem a mercado é sempre taker, porque ela tira do livro em vez de acrescentar.










